Fortalecer o que funciona: atividade destaca importância do aleitamento materno
Se é verdade que em time que está ganhando não se mexe, também é verdade que incentivar que o jogo continue sendo bem jogado tende a ser benéfico a todos, permitindo que a vitória seja alcançada com mais facilidade.

Com esse espírito, a Escola do Legislativo da Câmara Municipal de Piracicaba promoveu na tarde desta terça-feira (4), no Salão Nobre “Helly de Campos Melges”, a palestra "Amamentação para um começo de vida sustentável: fortalecer o que funciona”, e que teve como ápice a premiação da "Copa do Aleitamento: jogando juntos pela amamentação", realizada pelo Comitê Municipal de Aleitamento Materno e Alimentação Complementar Saudável de Piracicaba.
A atividade faz parte da Semana Municipal de Aleitamento Materno de 2026, que por sua vez acontece simultaneamente à Semana Mundial alusiva ao tema, e contou com a participação de profissionais e estudantes da área da saúde e também da educação.
“Por meio desta Procuradoria nós temos feito todo o debate sobre as condições das mulheres. E essa é uma pauta de extrema relevância para as mulheres, porque falar de aleitamento é falar da vida, é falar da saúde das crianças”, disse Rai de Almeida.

Palestra - Os presentes tiveram a oportunidade de ouvir a médica e consultora em lactação Flávia Schaidhauer discorrer sobre o tema “Amamentação para um começo de vida sustentável: priorizar o que funciona”, proposto pela WABA (World Alliance for Breastfeeding Action), a Aliança Mundial para Ação em Aleitamento Materno, que é uma rede global de indivíduos e organizações que tem como objetivo proteger, promover e apoiar o direito universal ao aleitamento materno em todo o mundo.
“Por que hoje estamos aqui? Porque, infelizmente, houve uma época, nos anos 70, em que o aleitamento materno chegou a menos de 5% da população. Nós aniquilamos o aleitamento materno no Brasil e no mundo. Não nós enquanto sociedade, mas uma indústria que chegou sem regulamentação, trazendo um 'substituto', e trouxe com isso quedas de aleitamento, aumento da mortalidade infantil e, quando se percebeu isso, o mundo teve que parar”, disse.
De acordo com a médica, a amamentação é fundamental não apenas para as mães, mas também para as crianças, já que protege da mortalidade infantil, reduz doenças respiratórias e mortes por doença diarreica, por exemplo. Ela também reduz a gravidade de bronquiolites, o tempo de uso de oxigênio e o tempo de internação. “Aquela mãe que amamenta o seu bebê que está com bronquiolite, ele vai melhorar mais rápido do que a mãe que está dando fórmula. Ou pode ser que ele nem piore para uma bronquiolite tão grave. Esse é o poder da amamentação”.
Fortalecer o que funciona - A partir da constatação de que algo precisava ser feito a fim de reverter o cenário da década de 70, diversas organizações governamentais e não governamentais começaram a atuar mundo afora. E nesse cenário, o Brasil foi um destaque, tendo implementado diversas legislações e políticas públicas que o colocaram como referência no aleitamento.
“Por que fortalecer o que funciona? Às vezes a gente só pensa em inovação, mas muitas vezes acabamos perdendo aquilo que realmente funciona. E no Brasil nós temos políticas públicas extremamente importantes, leis instituídas e que vários países não têm. Temos um comitê federal agora que está norteando as políticas públicas e temos uma coisa que não existe no mundo inteiro e que estamos exportando: o banco de leite humano. O banco de leite humano é puro trabalho brasileiro. Outros países vieram aprender conosco o que é fazer um banco de leite, montar um banco de leite, e hoje o Brasil coordena a rede internacional de bancos de leite humano”.
Prova de que o Brasil apresenta aproveitamento superior no cenário internacional, de acordo com a médica, é a manutenção da meta inicialmente proposta pela Organização Mundial de Saúde de que, até o ano de 2030, o aleitamento materno chegue a 70% em crianças de até seis meses de idade. A meta foi revista e mundialmente diminuída para 60%, já que muitos países não atingiram a meta de 50% em 2025. No Brasil, no entanto, os 50% já foram alcançados.
E para fortalecer e aprimorar o que já existe, é fundamental que toda uma rede esteja estruturada para oferecer todas as condições para que a amamentação ocorra sem entraves.
Isso envolve, segundo a especialista, a adoção de procedimentos básicos de acompanhamento nas unidades de saúde tanto das lactantes quanto dos bebês, identificando prontamente os casos que necessitam de maior atenção, a existência de condições trabalhistas para que a amamentação seja realizada, além do suporte da sociedade de forma ampla.
“Nenhuma mulher amamenta sozinha, ela amamenta em grupo. E, quando uma dessas partes falha, ela não consegue amamentar. Mas a culpa cai sobre quem? Sobre ela que não conseguiu, que não foi forte o suficiente, que não tentou o suficiente, que não fez o suficiente”, ponderou.
Ainda segundo a médica, mesmo que queira, uma porcentagem das mulheres não vai conseguir amamentar: “não será porque ela não quer, mas porque ela não terá uma rede de apoio, um parceiro que a ajude, uma família que a apoie; não tem licença-maternidade remunerada, porque ela só trabalha informalmente, não tem uma renda, e precisa deixar o bebê em casa e sair para trabalhar. É porque ela tem uma licença-maternidade de quatro meses ao invés de seis, é porque ela não tem no ambiente de trabalho, muitas vezes, um local adequado para ordenha e armazenamento”.
Para Flávia Schaidhauer, é igualmente indispensável que o conhecimento sobre a necessidade do aleitamento materno e da alimentação complementar saudável faça parte da formação dos médicos e profissionais de saúde, seja na detecção de problemas e na realização de encaminhamentos mais corretos, quanto na redução de prescrição de produtos industrializados, como fórmulas, sem que haja a sua real necessidade:
“O que é a alimentação infantil? A melhor alimentação infantil seria o leite materno até os seis meses e a introdução da alimentação complementar saudável. As nossas crianças não precisam de salgadinho, não precisam de coxinha, não precisam de refrigerante. Elas não precisam disso. O que elas precisam? Arroz, feijão, um franguinho, um ovo, uma carnezinha, moída, uma cenoura, uma batata. Preciso mandar vir melancia quadrada do Japão? Não preciso. A fruta da estação posso plantar ali, posso ter no meu pátio uma bananeira, uma laranja, tentar fazer ali. Mas, se for comida de verdade, é isso que precisamos resgatar”, disse.
Ainda segundo a especialista, é igualmente fundamental o combate à desinformação e à venda de produtos e procedimentos de forma indiscriminada, desconectados das reais necessidades das lactantes e de seus bebês.
“Isso confunde as famílias. Infelizmente, estamos chegando em um mundo em que o número de curtidas, de seguidores, é mais importante, muitas vezes, que a palavra de um profissional na unidade básica de saúde que está acompanhando, que está dizendo que não existe mamadeira igual ao peito. A presença digital massiva, que não está sendo fiscalizada, traz informações contraditórias, porque, quando nasce uma criança, nasce um consumidor que quer uma solução mágica para resolver tudo”.
Copa do Aleitamento - Um dos destaques da Semana Municipal do Aleitamento Materno foi a Copa do Aleitamento, que teve como objetivos incentivar a cultura do aleitamento nas escolas, nas unidades de saúde e de assistência social, defender os direitos das mães e do bebê, e garantir ambientes seguros e livres de infrações, como recomenda a NBCAL (Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes e Crianças de Primeira Infância, Bicos, Chupetas e Mamadeiras), além de criar redes de apoio e acolhimento prático, desde o uso do plano de parto e amamentação, até doadoras de leite humano.
A ideia, de acordo com Denise Fornazari, Presidente do Comitê Municipal de Aleitamento Materno, foi que as equipes registrassem as suas ações em prol da amamentação, com equivalência em pontos, a fim de mensurar o desempenho de cada unidade. Em que pese o tom lúdico da competição, a ideia foi apenas reconhecer o trabalho já exitoso realizado pelas equipes.
Entre as ações que pontuaram na Copa estavam a captação de doadoras para o banco de leite, coleta de frascos de vidro para serem ofertados ao banco de leite, elaboração e implementação de fluxograma de proteção e apoio ao aleitamento, campanha de “papabicos” (para coletar bicos artificiais e promover o desmame gentil) e relatos de experiências exitosas.
“A Copa do Aleitamento provou que, quando saúde, educação e assistência jogam juntos, o futuro da cidade e do aleitamento vence”, disse Denise.
Premiação - Na educação, a premiação na Copa do Aleitamento foi para a Escola Municipal “São Vicente de Paulo”, que obteve 856 pontos. Na saúde, o primeiro lugar foi para o Programa de Saúde da Família (PSF) Itapuã 2, com 2.375 pontos; seguido pelo PSF Gran Park, com 2.080 pontos, e pelo PSF Chapadão 2 - Sol Nascente, que obteve 1.584 pontos.
“Nós, da área da educação, sabemos o quanto é importante um trabalho em parceria com a Saúde aqui do município, com o Departamento de Alimentação e Nutrição, e que nós, da Escola São Vicente de Paulo, acreditamos numa educação pública, de qualidade, que atenda e acolha essas crianças com uma alimentação, com premissas do Programa Nacional de Alimentação Escolar, e o aleitamento materno adentra dentro dessa perspectiva”, disse a diretora Vanessa Pupo.
"Hoje eu fiz fechamento de folha de ponto, a gente está no início do mês. E eu olhei e deu 70% de aleitamento materno exclusivo. E eu vi a meta aqui, é a meta de 2030. A gente está lá. De amamentação complementada de zero a dois anos, a gente tem 69% do nosso território em amamentação complementada. E, assim, só quero agradecer à rede toda. Eu acho que uma andorinha sozinha não faz verão. Então, muito obrigada por todo mundo que é passarinho junto com a gente. Vamos fazer um jardim bem florido aqui”, agradeceu Mariana Guimarães, representante do PSF Itapuã 2.