Câmara celebra Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha

Celebrado anualmente no dia 25 de julho, o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha foi instituído em 1992, após a realização do 1º Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, sediado em Santo Domingo, na República Dominicana. O evento reuniu mais de 300 representantes de 32 países para denunciar opressões e debater soluções na luta contra o racismo e o sexismo.

Nesta quarta-feira (29), a Câmara Municipal de Piracicaba realizou a reunião solene em comemoração ao Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, instituído por meio do decreto legislativo 11/2017. A iniciativa da solenidade é das vereadoras Rai de Almeida e Silvia Morales

A vereadora Rai de Almeida abriu a solenidade com o poema "Vozes-Mulheres", de Conceição Evaristo, que retrata a trajetória de gerações de mulheres negras, mostrando o sofrimento herdado e a esperança de liberdade nas gerações futuras.

Em sua fala, como proponente da solenidade, a vereadora destacou a importância da data e da luta contra o apagamento histórico das mulheres negras. Para ela, a homenagem não pode ser apenas celebração, mas um compromisso com políticas públicas e com o enfrentamento ao racismo e ao sexismo.

Rai de Almeida ainda citou a intelectual Lélia Gonzalez, que “ensinou que não é possível compreender o Brasil sem compreender o protagonismo da população negra, especialmente das mulheres negras, que sempre resistiram às diversas formas de exclusão impostas pela nossa história”.

“Que esta homenagem seja um pequeno gesto nosso, desta Casa de Leis, um gesto dessa justiça. As homenageadas desta noite, minha mais profunda admiração, meu respeito, minha gratidão por vocês estarem juntas nesta parceria por uma sociedade mais justa, que suas histórias continuem abrindo caminhos para tantas outras mulheres que virão, que vieram e já se foram, mas de outras que virão depois de vocês”, disse a vereadora.

Além das proponentes da solenidade, a mesa de honra foi composta pela Conselheira da Sociedade Beneficente 13 de Maio, Ceiça Sandoval; pela vice-presidente do Instituto Afropira, Elaine Teotonio; e pela presidente do Conepir (Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra de Piracicaba), Rossana Barbosa. Em suas saudações, elas celebraram as homenageadas reconhecendo suas histórias e lutas.

Saúde mental das mulheres negras - Durante a solenidade, a psicóloga Isabel Farias, que também foi homenageada, ministrou a palestra “A interseccionalidade na saúde mental das mulheres negras: identidade, pertencimento, resistência e fortalecimento”.

Isabel Farias explicou o conceito de interseccionalidade, criado pela americana Kimberlé Crenshaw nos anos 1980, que mostra como diferentes formas de discriminação — como racismo, sexismo, machismo, homofobia e classismo — se combinam e afetam as pessoas de maneira única. Segundo ela, as mulheres negras sofrem com a combinação de racismo e sexismo (interseccionalidade), o que afeta profundamente sua saúde mental e autoestima.

Para ilustrar o tema, ela contou sua própria trajetória como cabeleireira especialista em cabelo afro, trancista e capoeirista e relatou situações que a levaram a fazer psicologia e a pesquisar a interseccionalidade na saúde mental. A palestrante ainda alertou sobre a necessidade do antirracismo e do letramento racial dos psicólogos porque, se não considerarem essas questões, acabam “revitimizando as pacientes negras que já chegam em sofrimento”.

Homenageadas - Isely Aline Machado Gusmão falou em nome das homenageadas. Ela afirmou que, antes de celebrar o Dia da Mulher Negra, é preciso reconhecer a realidade dolorosa que elas vivem visto que “carregar a pele preta é estar no centro de uma estrutura que as invisibiliza e as mantém na base da pirâmide social”.

Ela deu exemplos dessa realidade dolorosa citando a mãe que teme a letalidade policial, a mulher que vive a escravidão moderna com jornadas exaustivas e o trabalho invisível do cuidado, da injustiça no mercado de trabalho, onde recebem os menores salários mesmo com qualificação, e do racismo obstétrico, que as coloca nos piores indicadores de mortalidade.

“Quiseram que a nossa história fosse contada apenas pela tragédia, que a nossa narrativa fosse apenas o sofrimento. Porém, nós não somos apenas a dor que nos causaram. Nós somos a força que nos trouxe até aqui”, declarou.

Ao encerrar a fala, ela pediu para as mulheres negras não recuarem “um centímetro sequer”, pois sua voz é a esperança de futuro para as que ainda estão silenciadas. “Nós não daremos nenhum passo atrás. Ubuntu, eu sou porque todas nós somos”, concluiu.

Foram homenageadas:

Alessandra Benedita Borges - é natural de Piracicaba, graduada em Eventos e fundadora do "Ale Ateliê", marca de moda afro que promove representatividade e preservação de tradições. Participou dos coletivos Meninas Mahin, Beleza Preta e Quebrada Criativa, atuando no cenário cultural e de protagonismo negro da cidade.

Ediana Maria de Arruda Raetano - é arte-educadora, atriz e artista, neta do Mestre Antônio Carlos Ferraz. Criou em 2007 o Grupo de Samba de Lenço Mestre Antônio Carlos Ferraz, que coordena e preserva o Samba de Lenço, Patrimônio Imaterial do Estado de São Paulo. Adotou o turbante como ferramenta de resistência e fortalecimento da autoestima das mulheres negras. É Rainha do Maracatu Baque Caipira e integra o Batuque de Umbigada.

Isely Aline Machado Gusmão - é graduada em Enfermagem pela PUC/SP, natural de Sorocaba e mudou-se para Piracicaba em 2016. Foi gestora do CRAB Piracicamirim e da UBS Centro, e atualmente é enfermeira gestora na Vigilância Epidemiológica e professora universitária. É ativista do movimento negro desde 1995, conselheira do CONEPIR, dirige o Fórum da Saúde da População Negra e organiza a Semana de apoio à amamentação negra.

Josélia Emídio da Silva - vive em Piracicaba há quase 30 anos, é liderança comunitária no Santa Fé 2, onde ergueu sua casa em mutirão. É integrante da Casa do Hip Hop e do coletivo Barranco Cultural, conselheira municipal da saúde e suplente da assistência social. Trabalha como cozinheira, faxineira, auxiliar odontológica e cuidadora de horta, e encontrou alento no Maracatu Baque Caipira.

Maria José - começou a trabalhar como boia-fria aos 6 anos. É professora, historiadora, jornalista e assistente social. Atuou na Microcamp inserindo jovens no mercado de trabalho, foi diretora da regional de Piracicaba na Secretaria Estadual de Emprego e atuou na alfabetização de jovens e adultos e na coordenação de projetos de educação ambiental pelo município.

Mayra Kristina de Camargo – é servidora pública há 29 anos e Promotora Legal Popular desde 2016. É atriz, batuqueira, rapper, palestrante, MC e fundadora do grupo 4MP. Agente cultural do Barranco Cultural no Santa Fé 1, voluntária da Casa de Cultura Hip Hop e integrante da diretoria da Associação Vila África, produz eventos de grande representatividade para a comunidade negra.

Nathália Pezzato de Oliveira - é atriz há 16 anos, pedagoga, poetisa, contadora de histórias, produtora e educadora social. Integrou a CETA, Cia. 3º Ato e Os Geraldos. É coordenadora pedagógica no projeto "Afropira nas Escolas" e idealizou "O Sopro de Kaiumba", releitura do Batuque de Umbigada. Foi apresentadora de rádio e TV e atua como instrutora de trânsito.

Renata de Cássia de Aguiar Souza - é bacharel em Direito e está no terceiro mandato como presidente do SIEMACO, com trajetória de defesa dos direitos da classe trabalhadora, majoritariamente feminina. Integra a Rede de Atendimento e Proteção à Mulher da Câmara Municipal, defendendo pautas como equidade salarial e combate à violência no trabalho.

Silvana do Amaral Veríssimo - é natural de Piracicaba, mestre em Educação, pós-graduada em Direitos Humanos e possui certificado em Estudos Afro-Latino-Americanos por Harvard. Organiza o Seminário de Mulheres Negras desde 2003, foi conselheira nacional dos Direitos das Mulheres e coordenou iniciativas como Afro Mulher e Oduwá, formando cerca de 7.500 pessoas. Representou o Brasil em fóruns na Suíça, EUA, Dubai, Senegal e Tunísia, integrando ONU e OEA, e recebeu o Prêmio Nacional de Direitos Humanos (2015) e o Mulheres Inspiradoras (2026).