Piracicaba: a cidade onde a memória parou

Por: Rai de Almeida Em: 11 de novembro de 2025

Piracicaba é uma cidade rica em história, cultura, meio ambiente e diversidade. Seu próprio nome significa “lugar onde o peixe para. ” Mas, nos dias atuais, esse significado pode ser reinterpretado: aqui é um lugar no qual os turistas param para conhecer, onde os moradores dedicam um pouco de seu tempo para admirar as belezas naturais da cidade e que muitos imigrantes escolheram (e escolhem) como lar. Entretanto, aquilo que deveria ser cuidado com zelo, como fazemos com o que é importante em nossas vidas pessoais, não tem recebido a mesma atenção quando se trata dos patrimônios históricos da cidade.

Um olhar para a cidade, mesmo que superficial, é capaz de perceber a falta de cuidado e de preservação da nossa memória. Nos últimos anos, e quem acompanha nosso mandato sabe, nos dedicamos a lutar pela preservação de espaços históricos e de cultura que, na cidade, sofreram (e sofrem) verdadeiros ataques. Assim, cabe lembrar o quanto lutamos pela preservação do prédio histórico da Pinacoteca (que a Prefeitura, sob a gestão Luciano Almeida, teimava em transformar em sede da Polícia Federal). No mesmo sentido, lutamos (e vencemos) pela preservação e manutenção da biblioteca pública (ameaçada que estava de virar posto de saúde!). E isso só para citar apenas dois casos. Diante desse quadro, uma questão nos vem à mente: trata-se de um descuido não intencional ou de um esquecimento proposital, para que tudo seja apagado e reste apenas o concreto de prédios sem história a darem lugar, posteriormente, a empreendimentos imobiliários milionários?

Para piorar essa situação, o poder Executivo – seja na gestão anterior como nesta – não cumpre o papel fundamental que deveria cumprir na preservação e fiscalização desses bens. Por exemplo, o CODEPAC (Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural) se encontra ausente dessas discussões e diz amém a tudo o que é determinado pela Prefeitura – compactuando com o descaso para com a cultura e deixando de cumprir o papel fundamental que lhe cabe, que é justamente o de proteger o nosso patrimônio. Por exemplo, estivemos nesta semana na Casa do Povoador – onde as paredes estão pichadas, onde há cimento (!) colocado na parede de taipa (que não podem, jamais, serem revestidas com esse material). Para além disso, as paredes internas também estão deterioradas, com a pintura desgastada a exibir o descaso evidente do CODEPAC e do Governo.

Também, cabe citar o que vem sendo feito com o “Salão Internacional de Humor,” que possui destaque nacional, mas esteve completamente alagado nos últimos dias de chuva – e, por falta de iniciativa do governo Helio Zanatta, correu o risco de não acontecer e apresentou ao público uma edição com problemas em vários setores (valendo lembrar que o prefeito sequer se fez presente à sua abertura!). Some-se a isso, ainda, a venda (em leilão) do prédio da Escola de Música Maestro Ernst Mahle – propriedade particular que deveria ter tido, minimante, um olhar da municipalidade sobre ele a fim de se buscar a sua aquisição e preservação histórica.

Cabe dizer ainda que, além das perdas simbólicas e sociais, o apagamento de nossa memória cultural também gera prejuízos econômicos – uma vez que Piracicaba é um destino turístico reconhecido justamente por sua história e cultura. Não aproveitar esse potencial para evoluir e prosperar é inadmissível. Deixar ao abandono aquilo que atrai turistas e movimenta parte da economia local é um verdadeiro tiro no pé. Cada casarão abandonado e cada espaço cultural degradado representa menos visitantes, menos movimento no comércio e menos renda para trabalhadores que vivem, direta ou indiretamente, do turismo.

Por isso, Piracicaba precisa urgentemente recuperar seu potencial cultural e cuidar com zelo de seu patrimônio. É preciso buscar um processo eficiente de sustentabilidade nesse campo – a fim de preservarmos nossos espaços e próprios públicos históricos sem prejudicar o crescimento da economia e do turismo a ele ligado. É preciso conservar nosso vasto acervo histórico como fonte de desenvolvimento sustentável, investindo em roteiros turísticos, feiras culturais e eventos que valorizem a identidade local. É preciso atender ao que orienta o Plano Municipal de Cultura, o Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas e – de fundamental importância – é preciso de uma vez por todas termos Políticas Públicas sérias na área da cultura.

Qualquer ação que não observe essas urgências é desastre, é descaso com a nossa história e com a alma piracicabana. Sem elas, seguiremos caminhando para o esquecimento de nós mesmos e, talvez, para o mesmo buraco onde nossa memória tem sido lentamente enterrada.

Área do Cidadão

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