Tarifa Zero e os impactos na vida das mulheres

Por: Rai de Almeida Em: 15 de maio de 2026

A implementação da Tarifa Zero no transporte público brasileiro tem deixado de ser uma pauta utópica para se tornar uma realidade em mais de 115 municípios (dados de 2025). Embora o impacto econômico geral seja o benefício mais visível, para as mulheres, essa política atua como um motor de autonomia e reparação histórica.

Diferente dos homens, que tendem a fazer deslocamentos pendulares (casa-trabalho-casa), as mulheres são as principais responsáveis pela mobilidade do cuidado. Isso inclui trajetos fragmentados para levar filhos à escola, buscar idosos em consultas médicas ou realizar compras domésticas.

Em sistemas tarifados, cada "perna" dessa viagem gera um custo adicional. A Tarifa Zero elimina o "pedágio" sobre o cuidado.

Estudos em cidades com gratuidade mostram um aumento imediato no acesso a serviços de saúde preventiva. Mulheres de baixa renda passam a realizar exames que antes eram adiados pelo custo da passagem.

Como as mulheres ainda recebem, em média, salários inferiores aos dos homens e ocupam a maior parte dos postos de trabalho informais, o gasto com transporte compromete uma fatia maior de sua renda.

Segundo pesquisas sobre o esquema Shakti (Índia) e modelos brasileiros, a economia mensal pode variar de R$ 150 a R$ 300 por pessoa. Esse valor é majoritariamente revertido para o consumo básico. Dados da prefeitura de cidades com Tarifa Zero indicam que o montante economizado pelas famílias é injetado no comércio local, especialmente em alimentação e educação dos filhos.

A gratuidade devolve às mulheres o "direito à cidade". Quando o transporte é pago, muitas mulheres restringem sua circulação ao estritamente necessário por questões de sobrevivência.

A Tarifa Zero permite que mulheres busquem emprego em bairros mais distantes, frequentem espaços de lazer e participem de atividades culturais sem que isso pese no bolso.

Com o aumento do fluxo de passageiros gerado pela gratuidade, os pontos de ônibus e veículos tendem a ficar menos desertos, o que pode aumentar a sensação de segurança coletiva, embora este ponto ainda demande políticas complementares de iluminação e combate ao assédio.

De forma resumida, a Tarifa Zero elimina o custo fixo de deslocamento, representando assim maior renda disponível para alimentação e saúde. Facilita a mobilidade do cuidado, com menos sobrecarga financeira em tarefas domésticas. Possibilita acesso a novas oportunidades de emprego, com o fim da restrição geográfica para buscar trabalho. Possibilita o uso democrático de praças, parques e centros culturais, contribuindo para maior presença feminina no espaço urbano.

Apesar dos avanços, pesquisadores da NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos) e coletivos como o Movimento Passe Livre (MPL) alertam que a Tarifa Zero deve ser acompanhada de qualidade: ônibus lotados e baixa frequência de horários no período noturno continuam sendo obstáculos, especialmente para mulheres que precisam conciliar múltiplas jornadas.

O fato é que esse assunto não dá ré. O que nos resta é buscar o melhor modelo para implementar a Tarifa Zero no transporte público de todo o País, respeitando características socioeconômicas regionais.

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